Sentir mais fome depois de alguns dias consumindo menos calorias pode parecer uma reação inesperada. No entanto, essa resposta faz parte de um mecanismo que acompanha a humanidade há milhares de anos. Lucas Peralles, nutricionista esportivo, explica que o organismo humano foi moldado em um cenário completamente diferente do atual, no qual a falta de alimento era muito mais comum do que o excesso.
Embora hoje supermercados, restaurantes e aplicativos de entrega ofereçam comida praticamente a qualquer hora, o cérebro e os hormônios continuam funcionando de acordo com estratégias desenvolvidas ao longo da evolução. Isso significa que, diante de sinais prolongados de restrição energética, o organismo pode reagir como se estivesse enfrentando um período de escassez, ativando mecanismos destinados a preservar energia e aumentar as chances de sobrevivência.
Por que o organismo reage quando percebe que estamos comendo menos?
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, o corpo não sabe que alguém decidiu fazer uma dieta. O que ele percebe é uma redução na quantidade de energia disponível para manter suas funções. A partir desse momento, diversos sistemas começam a trabalhar para preservar o equilíbrio interno e reduzir os riscos associados à falta de alimento.
Em termos fisiológicos, hormônios ligados à fome e à saciedade passam por ajustes graduais. Ao mesmo tempo, ocorre uma tendência de economizar energia em atividades que não são essenciais para a sobrevivência imediata. Lucas Peralles evidencia que essa resposta representa uma adaptação biológica construída ao longo da evolução, quando longos períodos sem acesso à comida eram uma realidade constante para os seres humanos.
A evolução ainda influencia nossas escolhas alimentares?
Embora a sociedade tenha mudado profundamente, a biologia humana evolui em um ritmo muito mais lento. Durante milhares de gerações, indivíduos capazes de armazenar energia com eficiência possuíam maiores chances de sobreviver às épocas de escassez. Esse mecanismo foi transmitido ao longo do tempo e permanece presente no funcionamento do organismo.
Curiosamente, hoje vivemos uma situação oposta. Em vez da falta de alimentos, convivemos com abundância, alta disponibilidade de produtos ultraprocessados e estímulos constantes para comer. Na avaliação de Lucas Peralles, esse contraste ajuda a explicar por que controlar o peso corporal pode ser tão desafiador. O cérebro continua programado para valorizar alimentos altamente energéticos, mesmo quando eles já não são necessários para garantir a sobrevivência.
O cérebro consegue antecipar momentos difíceis?
Há um detalhe importante: o organismo não prevê o futuro da forma como imaginamos. Ele interpreta sinais presentes. Quando a ingestão calórica permanece reduzida durante um período prolongado, o cérebro entende que existe uma possibilidade de escassez e passa a adotar estratégias para proteger suas reservas energéticas.

Entre essas respostas estão o aumento da sensação de fome, alterações na percepção de saciedade e mudanças no gasto energético diário. Sob outro ângulo, isso significa que a dificuldade para manter uma dieta nem sempre está relacionada à falta de comprometimento. Muitas vezes, trata-se de uma reação fisiológica que busca restabelecer o equilíbrio energético do organismo.
O que esse conhecimento muda na prática?
Compreender a influência da evolução sobre o metabolismo permite abandonar a ideia de que emagrecer depende exclusivamente de força de vontade. O organismo responde continuamente aos estímulos recebidos, ajustando seu funcionamento para preservar energia sempre que interpreta existir algum risco para sua sobrevivência.
Por esse motivo, estratégias muito restritivas tendem a se tornar cada vez mais difíceis de sustentar ao longo do tempo. Conforme ressalta Lucas Peralles, conhecer esses mecanismos favorece decisões mais conscientes e realistas, permitindo construir um processo de emagrecimento que respeite o funcionamento natural do corpo, em vez de lutar contra ele.
Entender a biologia ajuda a compreender o próprio comportamento
Os avanços da ciência mostram que muitas dificuldades enfrentadas durante o emagrecimento não representam falhas individuais, mas respostas fisiológicas desenvolvidas ao longo da história da espécie humana. O organismo continua utilizando mecanismos que foram essenciais para garantir a sobrevivência em um ambiente completamente diferente daquele em que vivemos hoje.
Quando esse funcionamento passa a ser compreendido, torna-se mais fácil enxergar a alimentação sob uma perspectiva menos baseada em culpa e mais orientada pelo conhecimento científico. Como observa Lucas Peralles, entender por que o corpo reage diante da redução de calorias é um passo importante para desenvolver estratégias sustentáveis, capazes de promover saúde sem ignorar a complexidade do metabolismo humano.

