O Dr. Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, ressalta que, em um campo clínico dominado por protocolos farmacológicos e avaliações neuropsicológicas, há uma dimensão do cuidado ao idoso com demência que permanece sistematicamente subutilizada: o poder terapêutico dos objetos, fotografias e cartas que carregam a história de uma vida. Esses elementos materiais da memória, frequentemente guardados em gavetas ou esquecidos em caixas, funcionam como âncoras identitárias capazes de ativar circuitos cerebrais preservados e de restabelecer, mesmo que temporariamente, o fio que conecta o idoso a quem ele foi. Aqui, você entenderá melhor por que a memória material é muito mais do que sentimentalismo.
O que os objetos fazem com o cérebro que as palavras não conseguem?
A memória semântica e episódica, que armazena fatos, nomes e eventos vividos, é a primeira a ser comprometida pela demência. No entanto, a memória associada a estímulos sensoriais concretos, o cheiro de um perfume, a textura de um tecido, a imagem de um rosto em uma fotografia antiga, acessa circuitos cerebrais diferentes, com maior resistência ao processo degenerativo. Na prática, quando um idoso com Alzheimer avançado segura uma foto do casamento e reconhece o próprio rosto jovem, não está apenas sendo nostálgico: está acessando redes neurais que a doença ainda não destruiu completamente.
Yuri Silva Portela explica que esse fenômeno fundamenta uma abordagem terapêutica estruturada conhecida como reminiscência, que utiliza objetos, fotografias, músicas e outros elementos biográficos como ferramentas de estimulação cognitiva e afetiva. Diferentemente de intervenções que tentam treinar a memória comprometida, a reminiscência trabalha com o que ainda existe, utilizando os fragmentos preservados como ponto de partida para o cuidado.
Reminiscência estruturada como intervenção clínica
A terapia de reminiscência tem crescente respaldo na literatura científica geriátrica. De fato, estudos com grupos de idosos com demência leve a moderada demonstram que sessões regulares de reminiscência estruturada produzem melhora do humor, redução de comportamentos de agitação, aumento da comunicação verbal e melhora temporária da memória autobiográfica. Esses efeitos, ainda que transitórios, têm impacto real sobre a qualidade de vida do paciente e sobre o bem-estar dos cuidadores que participam das sessões.

Na avaliação de Yuri Silva Portela, o que diferencia a reminiscência terapêutica de uma conversa informal sobre o passado é a intencionalidade clínica com que é conduzida. Por essa razão, a seleção dos materiais, a forma como as perguntas são formuladas, o ritmo da sessão e a atenção às respostas emocionais do paciente são elementos que transformam um álbum de fotografias em uma ferramenta de cuidado com objetivos clínicos definidos e mensuráveis.
O papel da família na construção do acervo biográfico
Para que a memória material possa ser utilizada de forma terapêutica, é necessário que ela seja reunida, organizada e contextualizada. Esse trabalho, que frequentemente cabe à família, vai muito além de separar fotografias: envolve resgatar cartas, objetos significativos, registros de momentos importantes e construir uma narrativa biográfica que possa ser compartilhada com o paciente e com a equipe de cuidado.
Conforme expõe o doutor Yuri Silva Portela, esse processo tem um efeito secundário valioso: ele reposiciona a família na relação de cuidado, transformando parentes que se sentiam impotentes diante da progressão da demência em participantes ativos de uma intervenção terapêutica concreta. Assim, organizar o álbum do pai, selecionar as músicas que ele amava ou encontrar a carta que ele escreveu décadas atrás são atos que têm significado clínico e que fortalecem o vínculo entre o idoso e quem cuida dele.
Limitações, potencial e o cuidado com memórias dolorosas
A utilização terapêutica da memória material exige sensibilidade para identificar não apenas as lembranças que confortam, mas também aquelas que podem provocar angústia. Fotografias de pessoas que o idoso perdeu, objetos associados a experiências traumáticas ou períodos de vida marcados por conflito podem despertar emoções difíceis de manejar no contexto de uma sessão de reminiscência.
Esse cuidado não deve paralisar a intervenção, mas orientá-la. Tal como indica o doutor Yuri Silva Portela, a reminiscência bem conduzida não evita o passado doloroso, mas o aborda com a delicadeza necessária para que o idoso possa processá-lo de forma segura, acompanhado por alguém que compreende o que aquela memória representa e que está preparado para acolher o que ela desperta.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

