A nova estratégia de defesa dos EUA divulgada recentemente representa uma transformação significativa no modo como os Estados Unidos veem seu papel no mundo e as prioridades de sua política de segurança nacional. Essa estratégia, que reflete também uma atualização da Estratégia Nacional de Segurança, não é apenas um documento técnico, mas um retrato da visão americana sobre como usar e direcionar sua força militar no século XXI. Os Estados Unidos mudaram seu foco tradicional de uma presença militar global extensa para uma postura mais concentrada na defesa do próprio território e do hemisfério ocidental, o que tem implicações diretas e indiretas para países como o Brasil, que ocupa um papel geopolítico estratégico na América do Sul e no Atlântico Sul.
Esse novo documento refraseia as prioridades americanas ao colocarem a defesa do território nacional e das regiões adjacentes como eixo central da política de segurança. Historicamente, os Estados Unidos vinham mantendo presença militar em várias regiões do mundo com o objetivo de deter ameaças longe de seu solo. Isso envolvia alianças robustas, compromissos permanentes com aliados e projeção de poder em múltiplos teatros internacionais. A mudança hoje proposta reduz esse tipo de compromisso extenso, priorizando áreas consideradas críticas para a segurança direta dos próprios Estados Unidos e de seus aliados mais próximos.
A partir dessa lógica mais introspectiva, a nova estratégia redefine o papel dos aliados e parceiros regionais, incentivando que países com mais capacidade militar assumam uma parte maior de seus próprios esforços de defesa. Isso reflete uma mudança no equilíbrio dos compromissos tradicionais, com os Estados Unidos deixando claro que nem sempre responderão a qualquer ameaça em qualquer lugar do planeta com os mesmos recursos e intensidade do passado. Esse recalibrar força a Europa, por exemplo, a assumir mais responsabilidade por sua defesa convencional.
Do ponto de vista da América Latina, e especificamente do Brasil, essa mudança não está isenta de consequências. A nova estratégia dos Estados Unidos coloca a estabilidade e a segurança no hemisfério ocidental como bens estratégicos essenciais. Isso significa que problemas que antes seriam vistos apenas como questões internas — como o crime organizado transnacional, a vigilância de fronteiras e o controle de rotas marítimas — agora são interpretados como parte de um cenário de segurança com repercussões regionais. No caso brasileiro, lacunas na vigilância territorial e na coordenação entre diferentes agências podem ser vistas, no contexto estratégico americano, como pontos de vulnerabilidade regional que exigem maior atenção e ação coordenada.
Além disso, a interação entre essa estratégia e a política externa brasileira pode gerar tensões ou pressões adicionais. A estratégia americana trata de equilibrar rivalidades globais, especialmente com potências como a China, e busca limitar influências externas em sua área de interesse. Países estrategicamente relevantes, como o Brasil, podem se ver sob uma pressão maior para alinhar certas decisões geopolíticas ou econômicas com as expectativas dos Estados Unidos, ainda que isso conflite com seus próprios interesses de autonomia e diversificação de parcerias.
O Brasil também enfrenta desafios internos que se cruzam com esse novo ambiente estratégico. A criminalidade transnacional organizada, que opera em diferentes escalas e fronteiras, é interpretada como um componente que transcende a simples questão policial e se insere como um elemento de instabilidade regional. Isso reforça a necessidade de uma grande estratégia nacional que integre defesa, segurança, economia e política externa, criando uma abordagem holística capaz de responder tanto às expectativas internacionais quanto às demandas internas por segurança e desenvolvimento.
A resposta brasileira a esse novo contexto estratégico internacional passa por reforçar sua própria capacidade de planejamento e projeção estratégica. Isso implica, por exemplo, fortalecer a vigilância de fronteiras, desenvolver capacidades de defesa marítima no Atlântico Sul, melhorar a integração entre órgãos de inteligência e segurança, e adaptar o marco legal às ameaças híbridas contemporâneas. Sem uma estratégia nacional clara e coesa, o Brasil corre o risco de ser visto apenas como um ator passivo em um cenário em que a dinâmica de poder se torna mais competitiva e seletiva.
Por fim, a nova estratégia de defesa dos Estados Unidos realça uma reconfiguração tanto dos meios militares quanto da interpretação das ameaças no mundo moderno. Países como o Brasil são convidados, ainda que indiretamente, a pensar estrategicamente sobre sua soberania, sua inserção regional e suas relações internacionais em um contexto onde antigas certezas de segurança coletiva podem não mais se sustentar. Essa realidade exige reflexão profunda e ação coordenada para garantir que as decisões nacionais sejam informadas por uma visão estratégica integral que responda às mudanças no ambiente global de segurança.
Autor : Valery Baranov

