Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, aponta uma questão que ganhou espaço com a digitalização de serviços: nem todo paciente consegue acessar a saúde pelas mesmas ferramentas. Agendamentos, resultados de exames, orientações e canais de atendimento passaram a utilizar aplicativos, sites e plataformas digitais. Quando a pessoa idosa não consegue utilizar esses recursos com autonomia, uma dificuldade tecnológica pode acabar interferindo no próprio acesso ao cuidado.
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Quando a tecnologia deixa de facilitar o atendimento?
A digitalização pode tornar alguns processos mais rápidos, mas também cria exigências que nem todos conseguem acompanhar. Criar senhas, confirmar informações, localizar documentos, navegar por diferentes telas e compreender instruções são tarefas simples para quem já está acostumado com esses recursos. Para outra pessoa, cada etapa pode representar uma barreira. Quando o usuário encontra dificuldades em várias etapas seguidas, uma tarefa que deveria facilitar o atendimento pode acabar consumindo tempo, gerando insegurança e aumentando a dependência de outras pessoas.
Tal como alude o Doutor Yuri Silva Portela, o problema se torna mais relevante quando a ferramenta digital passa a ser o principal caminho para conseguir determinado serviço. Um paciente que não consegue realizar um agendamento pelo celular pode adiar uma consulta. Quem não sabe acessar um resultado pode depender de familiares para acompanhar informações importantes. Essa dependência pode ser especialmente delicada quando envolve dados pessoais ou informações sobre tratamentos, já que o paciente pode deixar de acompanhar diretamente etapas importantes do próprio cuidado.
Por isso, oferecer um serviço digital não significa necessariamente ampliar o acesso. É preciso observar quem consegue utilizá-lo, quais dificuldades aparecem no percurso e que alternativas permanecem disponíveis para quem necessita de outro tipo de atendimento. A acessibilidade precisa ser considerada desde o planejamento da ferramenta, incluindo linguagem simples, navegação intuitiva e suporte para dúvidas, para que a tecnologia cumpra seu papel sem afastar quem mais precisa do serviço.
Por que os idosos podem enfrentar mais dificuldades?
A dificuldade com tecnologia não está necessariamente relacionada à idade, destaca o Doutor Yuri Silva Portela. Muitos idosos utilizam celulares, aplicativos e redes sociais diariamente, enquanto outras pessoas, de diferentes faixas etárias, também enfrentam limitações digitais. O que muda são as oportunidades de aprendizado, a familiaridade com determinadas ferramentas e as condições individuais. O acesso a dispositivos, a qualidade da conexão e a possibilidade de receber orientação também influenciam a capacidade de utilizar recursos digitais com segurança e autonomia.

Interfaces pouco intuitivas podem aumentar essa dificuldade. Letras pequenas, excesso de etapas, linguagem técnica, necessidade constante de códigos e mudanças frequentes no funcionamento das plataformas tornam tarefas simples mais cansativas. Quando isso acontece em um serviço de saúde, a consequência pode ser maior do que uma experiência frustrante. Uma dificuldade para navegar pela plataforma pode resultar em um agendamento perdido, uma informação que deixa de ser consultada ou uma orientação que não chega ao paciente no momento necessário.
A exclusão digital pode afetar a continuidade do cuidado? Veja com o Doutor Yuri Silva Portela
A saúde depende de acompanhamento, especialmente quando existem consultas periódicas, uso contínuo de medicamentos ou necessidade de monitoramento. Se o paciente encontra dificuldades para remarcar uma consulta, acessar orientações ou acompanhar uma comunicação do serviço, pequenas interrupções podem se acumular. Com o tempo, essas falhas podem comprometer a continuidade do acompanhamento e dificultar a identificação de mudanças no estado de saúde, principalmente quando o paciente precisa de cuidados regulares.
Outro ponto é a comunicação com familiares e profissionais. Como comenta o Doutor Yuri Silva Portela, nem todo idoso possui alguém disponível para ajudá-lo sempre que surge uma dificuldade digital. Quando essa dependência se torna constante, a pessoa pode deixar de realizar determinadas tarefas por vergonha, receio de errar ou simplesmente por considerar o processo complicado demais. Essa situação também pode reduzir a participação do próprio paciente nas decisões, já que informações importantes acabam concentradas em quem consegue operar as ferramentas digitais.
Nesse cenário, exclusão digital e exclusão em saúde podem se aproximar. Uma barreira tecnológica não produz necessariamente um problema médico de forma imediata, mas pode dificultar o acesso a etapas importantes do cuidado. É essa sequência que precisa ser percebida antes que a dificuldade se transforme em afastamento dos serviços. Garantir alternativas de atendimento e oferecer suporte adequado ajuda a evitar que uma limitação no uso da tecnologia se transforme em uma barreira para o acompanhamento da saúde.

