Trégua entre Irã e Israel reduziu o preço do petróleo, mas analistas apontam que o Estreito de Ormuz mantém o mercado em alerta.
Depois de meses de escalada militar no Oriente Médio, o alívio no preço do petróleo trouxe um respiro para a economia global, mas a pergunta que fica é até quando essa calmaria vai durar. O conflito entre Irã e Israel, que teve um dos capítulos mais tensos no início de 2026 com ataques diretos a instalações estratégicas, provocou oscilações bruscas no mercado internacional de energia. Com o cessar-fogo em vigor, o barril do tipo Brent recuou das máximas registradas durante os momentos mais críticos da crise, mas a região segue no radar de agências de risco e bancos centrais.
Para quem vive no Brasil, a distância geográfica pode dar a falsa impressão de que esse conflito não afeta o dia a dia. Só que o preço da gasolina no posto, a inflação medida pelo IPCA e até as decisões do Banco Central sobre a taxa de juros têm ligação direta com o que acontece a milhares de quilômetros dali. Entender essa cadeia ajuda a explicar por que o noticiário internacional segue sendo, também, uma pauta econômica para o brasileiro.
Como o Estreito de Ormuz interfere no preço do combustível brasileiro
O ponto central dessa história geográfica e econômica é o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais movimentadas do planeta para o transporte de petróleo. Por ali passa uma parcela significativa do óleo produzido no Golfo Pérsico, incluindo parte da produção iraniana. Qualquer instabilidade nessa região, seja um ataque direto, seja apenas o risco de bloqueio, é suficiente para elevar os custos de seguro e frete dos navios petroleiros, o que se reflete quase imediatamente nos contratos futuros de energia negociados nas bolsas internacionais.
Mesmo com a trégua recente, agências de classificação de risco como a Fitch projetam que o preço médio do petróleo para 2026 deve permanecer perto de US$ 87 por barril, patamar considerado elevado em comparação com os anos anteriores à crise. Essa projeção reflete justamente a percepção de que o ambiente segue estruturalmente tensionado, mesmo sem novos confrontos abertos. As discussões internacionais sobre segurança nas rotas marítimas de escoamento de combustível continuam concentrando a atenção de operadores de mercado e formuladores de política econômica.
O mecanismo que liga esse cenário ao bolso do brasileiro passa por dois canais principais. O primeiro é direto: como o petróleo é cotado em dólar, uma alta no preço do barril encarece a importação de derivados, o que pressiona os preços praticados internamente por refinarias e distribuidoras. O segundo é cambial: momentos de tensão geopolítica costumam provocar fuga de capital de mercados emergentes, como o Brasil, para ativos considerados mais seguros, valorizando o dólar frente ao real e tornando ainda mais cara qualquer importação de energia.
O impacto na inflação e nas decisões do Banco Central
Economistas costumam resumir esse efeito com uma regra prática: a cada aumento de 1% no preço da gasolina, o impacto estimado no IPCA gira em torno de 0,05 ponto percentual. Parece pouco isoladamente, mas o efeito se espalha por outras cadeias produtivas, já que o custo de frete, os insumos agrícolas e diversos setores industriais dependem direta ou indiretamente de energia derivada de combustíveis fósseis. Esse fenômeno é conhecido entre analistas como um “imposto invisível”, porque encarece o consumo sem que exista, de fato, uma nova cobrança tributária.
Esse tipo de pressão inflacionária tem consequências diretas sobre a política monetária conduzida pelo Banco Central. Em cenários de choque energético, a autoridade monetária tende a adotar uma comunicação mais cautelosa sobre os próximos passos da taxa Selic, já que qualquer sinal de alívio no corte de juros pode ser revisto caso a inflação de curto prazo se mostre mais persistente do que o esperado. Ainda que analistas ouvidos por veículos econômicos avaliem que o cenário atual não é comparável a rupturas sistêmicas como a vivida durante a pandemia, a proximidade de decisões importantes do Copom com esse tipo de instabilidade internacional tende a aumentar a cautela nas comunicações oficiais.
Há ainda um componente político relevante nesse debate. Em ano eleitoral, existe pressão para que a Petrobras não repasse integralmente as altas internacionais ao consumidor final, evitando desgaste com a opinião pública. O problema é que segurar os preços abaixo da paridade internacional pode reduzir a margem de importadores privados, gerando risco de desabastecimento físico de combustível em determinadas regiões, um dilema que já se mostrou custoso ao país em episódios anteriores de instabilidade no mercado de energia.
Por que o Brasil pode até se beneficiar no curto prazo
Apesar dos riscos evidentes, organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam um cenário paradoxal para o Brasil. Diferente de economias que dependem fortemente da importação de energia, o país tem se consolidado como exportador líquido de petróleo, o que significa que parte da alta nos preços internacionais das commodities energéticas também gera receita extra para a balança comercial brasileira. Segundo projeções do FMI, essa dinâmica ajudou a elevar a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro para 2026, mesmo em um cenário de revisão para baixo do crescimento da economia global.
Isso não significa, porém, que o país esteja imune aos efeitos colaterais de uma crise prolongada. Se o conflito no Oriente Médio voltar a se intensificar e o preço do petróleo ultrapassar patamares mais extremos, a inflação global pode superar os 6% ao ano, o que exigiria novos apertos monetários em diversas economias e reduziria o fôlego do crescimento mundial, inclusive o brasileiro. Por ora, o cenário de trégua sustenta um equilíbrio delicado: alívio nos preços no curto prazo, mas sem garantias de estabilidade duradoura em uma região historicamente marcada por reviravoltas rápidas.
Fontes: Agência Brasil, Band, Gazeta do Povo

