terça-feira, abril 13, 2021
Home Política Recado de Arthur Lira expôs insatisfação do Congresso com Ernesto Araújo

Recado de Arthur Lira expôs insatisfação do Congresso com Ernesto Araújo

Horas depois de participar de uma reunião com representantes dos três Poderes, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), subiu o tom contra o governo do presidente Jair Bolsonaro, ressaltou que estava apertando um “sinal amarelo” e afirmou, na noite desta quarta-feira, 24, que os remédios políticos do Parlamento são conhecidos e alguns, “fatais”. Na avaliação de parlamentares da base aliada e de líderes partidários ouvidos pela Jovem Pan, o discurso de Lira tem um objetivo claro: sinalizar ao Palácio do Planalto que, diante da gravidade da crise causada pela pandemia do novo coronavírus, é necessário deixar a ideologia e o radicalismo de lado.

Sob reserva, dois deputados afirmaram que, apesar do tom duro do discurso de Lira, ainda não é possível vislumbrar a tramitação de um processo de impeachment. Entretanto, a intenção é deixar evidente que o Congresso não assistirá passivamente ao agravamento da crise sanitária. Argumento semelhante é utilizado pelo vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL-AM). Em entrevista à Jovem Pan antes do país ultrapassar a marca de 300 mil mortes causadas pela Covid-19, Ramos disse que “todo mundo perdeu a paciência” com o governo federal e que o Parlamento precisava reagir frente ao avanço da pandemia. “Não dá para o Parlamento assistir de forma passiva ao Brasil chegar a 3.000 mortes por dia e se aproximar de 300 mil mortos. O Parlamento precisa reagir e o presidente Bolsonaro precisa entender que, em momentos de crise, o país precisa de um líder nacional, que unifique a Federação, não que divida”, afirmou.

Na avaliação de outro grupo de parlamentares, o discurso de Lira tem um destinatário claro: o chanceler Ernesto Araújo. A troca no Ministério das Relações Exteriores é uma demanda antiga dos partidos do Centrão, mas a cobrança se tornou ainda mais enfática nos últimos dias, diante da busca do Brasil por mais vacinas contra a Covid-19. Para um líder próximo ao presidente da Câmara, a situação de Araújo é “insustentável”. Nesta quinta-feira, 25, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), afirmou, em entrevista coletiva, que a atuação de Araújo à frente da pasta está “muito aquém” do desejado. “Muito além da personificação, o que se tem que mudar é a política externa. As relações internacionais precisam ser mais presentes, em um ambiente de maior diplomacia. É algo que está evidenciado a todos, não só no Congresso, mas a todos os brasileiros que enxergam a necessidade de o Brasil ter uma representatividade externa melhor do que tem hoje”, disse Pacheco.

Em entrevista à Jovem Pan, o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores e membro da atual composição do colegiado, afirmou que “a situação está transparente para quem quiser ver, mudanças de procedimento e de ações devem ser feitas”, mas ressalvou que o chanceler já esteve no epicentro de outras crises e foi mantido no cargo por ter o apoio do presidente Jair Bolsonaro e de pessoas próximas, como o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), seu filho. “Ernesto detém apoio de pessoas muito próximas ao presidente. Das outras vezes, ele atravessou crise e as superou. O núcleo duro bolsonarista sempre o apoiou”, disse à Jovem Pan. “A prerrogativa legítima de atuar nesse quesito [demitir o chanceler] é exclusiva do presidente da República. A troca pode ser feita baseada em dois pilares: técnico e político. Neste segundo caso, a base aliada pode entrar no meio para opinar, mas é uma prerrogativa do presidente fazer, ou não, a troca”, acrescentou. Ao lado do presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI), Nelsinho Trad almoçou com o presidente Jair Bolsonaro e outros dois senadores na tarde desta quinta – ele afirma que a eventual troca no Itamaraty não foi tema do encontro.

Apesar da avaliação de que a demissão de Ernesto Araújo é uma prerrogativa de Bolsonaro, a base aliada ao governo exige a demissão do chanceler. Correligionário do presidente da Câmara, Arthur Lira, o deputado Fausto Pinato resume a situação: “Ou sai a ala ideológica ou a guerra está declarada”, disse à reportagem. “A ala ideológica não tem voto para sustentar o governo, eles não têm voto para segurar o governo”, explica. Mesmo com a promessa de se manter leal ao presidente da República, o Centrão tem emitido sinais explícitos ao Palácio do Planalto: a omissão do governo federal pode custar caro.

- Advertisment -

Most Popular

Oposição e aliados avaliam efeitos da conversa entre Bolsonaro e Kajuru

A conversa entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o senador Jorge Kajuru pode ter novos desdobramentos. Líderes da oposição avaliam que o...

Doria celebra redução de internações por Covid-19 com fase emergencial em SP

O governador de São Paulo, João Doria, disse nesta segunda feira, 13, que a fase emergencial reduziu em 17,4% as internações por Covid-19 no...

‘Nunca mais falo com ele, a relação com Bolsonaro está rompida’, diz Kajuru

Na esteira da decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG),...

Flávio Bolsonaro representa contra Kajuru no Conselho de Ética por divulgação de áudio

O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) protocolou, nesta segunda-feira, 12, uma representação contra o senador Jorge Kajuru (Cidadania-GO) na Comissão de Ética devido à gravação...