terça-feira, junho 15, 2021
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Médica barrada pelo Planalto critica tratamento precoce e diz não saber por que foi dispensada

Indicada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, e barrada pelo Palácio do Planalto para o cargo de secretária extraordinária de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus, a médica Luana Araújo disse, nesta quarta-feira, 2, em depoimento à CPI da Covid-19, desconhecer os motivos pelos quais sua nomeação não foi oficializada, apesar de ter atuado no Ministério da Saúde por dez dias. Aos senadores, a infectologista também criticou a adoção do tratamento precoce, uma das bandeiras defendidas pelo presidente Jair Bolsonaro, e ressaltou que não há um fármaco capaz de tratar infecção em seu estágio inicial.

“O que me foi dito é que existiam um período entre a criação da secretaria e o apostilamento dos cargos e que isso deveria ser feito antes da nomeação no Diário Oficial. Me disseram que sairia na segunda, mas não saiu. Sairia na terça, mas não saiu. Na quarta, eu já tinha entendido o que tinha acontecido. Na quarta a noite, fui chamada e comunicada de que, com pesar, a nomeação não sairia”, disse. Ela citou que Queiroga disse que seu nome “não ia passar pela Casa Civil”. Questionada pelo senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) se sua posição científica influenciou a decisão do governo Bolsonaro, a infectologista disse: “Não sei, senador”. Para o presidente da CPI da Covid-19, Omar Aziz (PSD-AM), a médica foi dispensada por não “rezar o Pai Nosso do jeito que o chefe maior manda”, em alusão ao presidente da República.

“Para nós é claro que não estão interessados em quem tem capacidade para gerenciar essa crise. Estão interessados em quem compactua com quem acreditou em tratamento precoce e imunidade de rebanho. O ministro Queiroga disse que teria autonomia para nomear quem ele quisesse. Quando falamos ‘mentiroso’, é porque realmente são fatos. Ele mentiu. Ele disse que tinha autonomia para montar o quadro que quisesse. A senhora é vetada na Casa Civil por duas razões: ou por não compactuar politicamente com ideias oriundas do gabinete paralelo, ou por estar envolvida com esquema de corrupção. O que não é seu caso. São essas duas hipóteses”, afirmou Aziz. “No seu caso, não é envolvimento com falcatrua, foi vetada por questão política, porque não compactua com essa loucura. Não basta competência, tem que rezar o Pai Nosso do jeito que o chefe maior manda”, acrescentou.

Durante a sessão, Luana Araújo foi questionada pelos senadores governistas Eduardo Girão (Podemos-CE), Marcos Rogério (DEM-RO) e Luis Carlos Heinze (PP-RS) sobre a eficácia de medicamentos como cloroquina, ivermectina e azitromicina. “Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. Quando eu disse, há um ano, que estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu, infelizmente, ainda mantenho isso em vários aspectos. Ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se estivéssemos escolhendo de que borda da Terra plano vamos pular”, disse. Ao parlamentar gaúcho, a infectologista disse que “o volume de evidências que a gente tem, hoje, no dia 2 de junho, não justifica a adoção de qualquer um desses fármacos.

Ela também pontuou que se o chamado “kit Covid” fosse eficiente, o Brasil não teria mais de 463 mil mortes causadas pela crise sanitária. “Embora a gente saiba que o SUS [Sistema Únicos de Saúde] não patrocina a distribuição dos kits Covid, essa distribuição ocorreu fartamente em território nacional. Se eles fossem de alguma forma úteis, não teríamos os números que temos hoje. É matemática, nesse sentido. Existem Estados em que, se cruzarmos a letalidade da doença com a distribuição dos kits, vamos ver que ele não teve qualquer impacto nesse sentido”.

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