segunda-feira, abril 12, 2021
Home Política Ernesto Araújo será demitido? Entenda porque ministro está na mira do Congresso

Ernesto Araújo será demitido? Entenda porque ministro está na mira do Congresso

Na noite da quarta-feira, 24, enquanto a Câmara dos Deputados votava um projeto de lei que permite que empresas e pessoas físicas paguem pela conversão de leitos de unidade de terapia intensiva (UTI) não destinados a Covid-19 em hospitais privados para o tratamento da doença, o presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), fez um duro discurso com recados ao Palácio do Planalto sobre o enfrentamento da pandemia no Brasil. Em sua manifestação, Lira afirmou que o Parlamento possui remédios “amargos”, alguns “fatais”. Apesar da alusão implícita a um eventual processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro, parlamentares ouvidos pela Jovem Pan afirmam que o pronunciamento tinha um destinatário específico: o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

No Congresso, prevalece a leitura de que a postura ideológica do chanceler inviabilizou a interlocução do governo brasileiro com os Estados Unidos, China, Rússia e Índia, países que poderiam fornecer vacinas contra a Covid-19 para o Brasil. Em abril de 2020, por exemplo, o ministro publicou um texto em seu blog pessoal, intitulado “Chegou o comunavírus”, no qual denuncia um “plano comunista” que iria tirar proveito da pandemia de coronavírus para implementar sua ideologia por meio de organismos internacionais, como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mais recentemente, o governo brasileiro se negou a reconhecer a vitória de Joe Biden sobre Donald Trump nas eleições presidenciais.

Na última semana, integrantes do Centrão subiram o tom contra o chanceler brasileiro e passaram a exigir a sua demissão. “Ou sai a ala ideológica ou a guerra está declarada”, disse o deputado Fausto Pinato (PP-SP), correligionário de Lira, em entrevista à Jovem Pan. A rejeição ao chefe do Itamaraty, no entanto, não se restringe à base aliada do governo Bolsonaro. Também na quarta-feira, em uma audiência no Senado, Araújo foi criticado por parlamentares de diversos partidos, que pediram a sua renúncia. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) apontou que a saída do ministro solucionaria uma crise. “O senhor não tem mais condições de ficar no Ministério das Relações Exteriores. E não é para criar uma crise, é para solucionar”, afirmou.  “O senhor ouviu o presidente dizer que era uma gripezinha. Faça um bem para o país e saia do Ministério das Relações Exteriores”, disse Jorge Kajuru (Cidadania-GO). “Faço um desafio a Vossa Excelência, que acha que não atrapalha o Brasil nesse momento de pandemia: peça exoneração por 30 dias. Vamos ver se, com esse gesto, não conseguimos mais rapidamente as vacinas”, pontuou a senadora Simone Tebet (MDB-MS).

Na mesma sessão, o assessor da Presidência da República para assuntos internacionais, Filipe Martins, que acompanhava Araújo no Senado, fez um gesto associado a supremacistas brancos durante a fala do presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). O episódio também é citado por parlamentares como mais um motivo que justificaria a demissão do ministro. “Esse é mais um componente que complica bastante a situação do Ernesto”, resumiu à reportagem um líder governista.

As críticas à atuação do chanceler brasileiro não são inéditas. No início do ano, o governo federal enfrentou dificuldades na importação de 2 milhões de doses da vacina de Oxford, fabricadas pelo Instituto Serum, na Índia. À época, Bolsonaro saiu em defesa de Araújo e negou a possibilidade de demiti-lo. “Quem demite sou eu”, afirmou no dia 21 de janeiro, em sua live semanal. É justamente pelo apoio do presidente da República e de seu filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) ao chanceler que uma ala de congressistas pondera que, apesar da pressão pela demissão, a permanência do ministro não pode ser descartada – ao menos pelos próximos dias. “Ernesto detém apoio de pessoas muito próximas ao presidente. Das outras vezes, ele atravessou crise e as superou. O núcleo duro bolsonarista sempre o apoiou”, disse à Jovem Pan o senador Nelsinho Trad (PSD-MS), ex-presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado.

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